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Entenda a Palavra de Deus

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Predestinação: Cinco Afirmações Incontestáveis - John Stott

Comentário Sobre Romanos 8:28-30

 “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) Ele tem, constantemente, decretado pelo seu conselho, que nos está oculto, livrar da maldição e da condenação aqueles que elegeu em Cristo dentre o género humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para honra.

Por isso os que foram alcançados por um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o Seu propósito, pelo seu Espírito que opera no tempo devido. Pela graça, os eleitos obedecem à vocação, são justificados gratuitamente, são feitos filhos de Deus por adopção, são criados conforme à imagem de seu Unigénito Filho Jesus Cristo, vivem religiosamente em boas obras, e, enfim, chegam, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna". (XVII Artigo de Religião – Predestinação e Eleição).

 

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogénito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou, também justificou; aos que justificou também glorificou” (Romanos 8:28-30).

 

Nestes dois versículos, Paulo esclarece o que quis dizer no versículo 28 ao referir-se ao "propósito" de Deus, segundo o qual Ele nos chamou e age para que tudo contribua para o nosso bem. Ele analisa o "bem" segundo os parâmetros de Deus, bem como o Seu propósito de salvação, através de cinco estágios, desde que a ideia surgiu na sua mente até à consumação do seu plano na glória vindoura. Segundo o apóstolo, esses estágios são: presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação.

 

Primeiro, há uma referência a: "aqueles que Deus de antemão conheceu". Essa alusão a "conhecer de antemão", isto é, saber de alguma coisa antes que ela aconteça, tem levado muitos comentaristas, tanto antigos como contemporâneos, a concluir que Deus prevê quem irá crer e que essa presciência seria a base para a predestinação. Mas, isso não pode estar certo, por duas razões:

1ª _ Porque, neste sentido, Deus conhece todo mundo e todas as coisas de antemão, ao passo que Paulo se está a referir a um grupo específico.

2ª _ Se Deus predestina as pessoas porque elas haverão de crer, então, a salvação depende dos próprios méritos das pessoas e não da misericórdia divina.

Paulo, no entanto, coloca toda a sua ênfase na livre iniciativa da graça de Deus. Assim, outros comentaristas lembram-nos que, no hebraico, o verbo "conhecer" expressa muito mais do que mera cognição [conhecimento] intelectual; ele denota um relacionamento pessoal de cuidado e afeição. Portanto, se Deus "conhece" as pessoas, Ele sabe o que passa com elas [138]; e quando se diz que Ele "conhecia" os filhos de Israel no deserto, isto significa que Ele cuidava e se preocupava com eles. [139]

 

Na verdade, Israel foi o único povo dentre todos os povos  da terra a quem Javé "conheceu", ou seja, amou, escolheu e com quem estabeleceu a Sua aliança. [140] O significado de "presciência" no Novo Testamento é similar. "Deus não rejeitou o seu povo [Israel], o qual de antemão conheceu", isto é, a quem Ele amou e escolheu (11:2). [141] À luz deste uso bíblico, John Murray escreve: "Conhecer” é usado num sentido praticamente sinónimo de “amar”. Portanto, “aqueles que ele conheceu de antemão” é equivalente a: “aqueles que ele amou de antemão”.[142] Presciência, é "amor peculiar e soberano". [143] Isto encaixa-se com a grande declaração de Moisés: "Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo _ mas porque o Senhor vos amava_". [144] A única fonte de eleição e predestinação divina é o amor divino.

 

Segundo, “aqueles que [Deus] de antemão conheceu, ou que amou de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogénito entre muitos irmãos” (29).

O verbo predestinou é uma tradução de “proorizõ” que significa: "decidiu de antemão", como se vê em Atos 4:28 (Fizeram o que o teu poder e tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse). É, pois, evidente que o processo de se tornar um cristão implica uma decisão, mas, antes de ser uma decisão nossa, foi uma decisão de Deus. Com isso, não estamos a negar o facto de que nós "nos decidimos por Cristo” livremente; o que afirmamos é que, se o fizemos, é só porque, antes disso, Ele já havia "decidido por nós".

Esta ênfase na decisão ou escolha soberana e graciosa de Deus é reforçada pelo vocabulário com o qual ela está associada. Por um lado, ela é atribuída ao "prazer" de Deus, à sua "vontade", "plano" e "propósito", [145] e por outro lado, já existia "antes da criação do mundo" [146] ou "antes do princípio das eras". [147]

  1. J. Vaughan resume esta questão nas seguintes palavras:

Cada um que se salva, no final, só pode atribuir a sua salvação, do primeiro ao último passo, ao favor e à acção de Deus. Todo o mérito humano tem de ser excluído. E, isto só pode acontecer voltando às origens do que foi feito e que se encontra muito além da obediência que evidência a salvação, ou mesmo da fé à qual ela é atribuída; ou seja, um acto de favor espontâneo da parte daquele Deus que antevê e pré-ordena desde a eternidade todas as suas obras. [148]

Este ensino não pode ser minimizado. Nem a Escritura, nem a experiência, nos autorizam  a fazê-lo. Se apelarmos para a Escritura, veremos que no decorrer de todo o Antigo Testamento temos de reconhecer que foi Israel "a única nação na terra" a quem Deus decidiu "resgatar para ser o seu povo", escolhido para ser sua "propriedade peculiar" [149] e que, em todo o Novo Testamento, se admite que os seres humanos são por natureza cegos, surdos e mortos, de tal forma que a sua conversão é impossível, a menos que Deus lhes dê vista, audição e vida. A nossa própria experiência confirma isso.

 

O Dr. J. I. Packer, na sua excelente obra “O Evangelismo e a Soberania de Deus”,[150] aponta que, mesmo que neguem isso, a verdade é que os cristãos crêem na soberania de Deus na salvação. "Dois factos demonstram isso", escreve ele. “Em primeiro lugar, o crente agradece a Deus pela sua conversão. Ora, porque é que o crente age assim? Porque sabe, no seu coração, que Deus foi inteiramente responsável por ela. O crente não se salvou a si mesmo; Deus salvou-o. (…) Há um segundo modo pelo qual o crente reconhece que Deus é soberano na salvação. O crente ora pela conversão de outros, roga a Deus para que opere neles tudo quanto for necessário para a salvação deles".

Assim, os nossos agradecimentos e a nossa intercessão provam que nós cremos na soberania divina. "Quando estamos de pé podemos apresentar argumentos sobre a questão; mas, quando nos prostramos de joelhos, todos concordamos implicitamente que foi Deus que nos salvou". [151] Mesmo assim, há mistérios que permanecem. E, como criaturas caídas e finitas que somos, não nos cabe o direito de exigir explicações ao nosso Criador, que é perfeito e infinito. Não obstante, Ele lançou luz sobre o nosso problema de maneira a contradizer as principais objecções que são levantadas e a mostrar que a predestinação gera consequências bem diferentes do que se costuma supor.

Vejamos cinco exemplos:

  1. Dizem que a predestinação gera arrogância, uma vez que (alega-se) os eleitos de Deus se gloriam da sua condição privilegiada.

Mas, o que acontece é justamente o contrário: a predestinação exclui a arrogância, pois afinal, não dá para entender como é que Deus pode compadecer-se de pecadores indignos como nós! Humilhados diante da cruz, eles só querem gastar o resto das suas vidas "para o louvor da sua gloriosa graça" [152] e passar a eternidade a adorar o Cordeiro que foi morto. [153]

  1. Dizem que a predestinação produz incerteza e que cria nas pessoas uma ansiedade neurótica quanto a serem ou não predestinadas e salvas.

Mas, não é bem assim. Quando se trata de incrédulos, eles nem sequer se preocupam com a sua salvação – até que, e a não ser que, o Espírito Santo os convença do pecado, como um prelúdio para a sua conversão. Mas, se são crentes, mesmo que estejam a passar por um período de dúvida, eles sabem que, no final, a sua única certeza consiste na eterna vontade do Deus que os predestinou. Não há nada que proporcione mais segurança e conforto do que isso. Como escreveu Lutero ao comentar o versículo 28: a predestinação "é uma coisa maravilhosamente doce para quem tem o Espírito". [154]

 

  1. Dizem que a predestinação leva à apatia. Afinal, se a salvação depende inteiramente de Deus e não de nós, argumentam, então toda responsabilidade humana diante de Deus perde a razão de ser.

Uma vez mais, isso não é verdade. A Escritura, ao enfatizar a soberania de Deus, deixa muito claro que isso não diminui em nada a nossa responsabilidade. Pelo contrário, as duas estão lado a lado em uma antinomia, que é uma aparente contradição entre duas verdades. Diferentemente de um paradoxo, uma antinomia "não é deliberadamente produzida; ela é-nos imposta pelos próprios factos.

Nós não a inventámos e não conseguimos explicá-la. Não há como nos livrarmos dela, a não ser que falsifiquemos os próprios factos que nos levaram a ela". [155] Um bom exemplo encontra-se no ensino de Jesus quando declarou que: "ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair"  [156] e que: "vocês não querem vir a mim para terem vida". [157] Porque é que as pessoas não vão a Jesus? Será porque não podem? Ou é porque não querem? A única resposta compatível com o próprio ensino de Jesus é: "Pelas duas razões, embora não as consigamos conciliar".

 

  1. Dizem que a predestinação produz complacência e gera antinomianos. Afinal, se Deus nos predestinou para a salvação eterna, porque é que não podemos viver como nos agrada, sem restrições morais, e desafiar a lei divina?

Paulo já respondeu a esta questão no capítulo 6. Aqueles que Deus escolheu e chamou, Ele uniu-os com Cristo na sua morte e ressurreição. E agora, mortos para o pecado, eles renasceram para viver para Deus. Paulo escreve também n'outro lugar que "Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença". [158] Ou melhor, Ele predestinou-nos para sermos conformes à imagem de seu Filho (29).

 

  1. Dizem que a predestinação deixa as pessoas egoístas, pois os eleitos de Deus passam a viver voltados apenas para si mesmos.

Mas, o que acontece é o contrário. Deus chamou um único homem, Abraão, e apenas a sua família, não para que apenas eles fossem abençoados, mas para que através deles todas as famílias da terra pudessem ser abençoadas. [159] De forma semelhante, a razão pela qual Deus escolheu o seu Servo, a figura simbólica de Isaías que vemos cumprida parcialmente em Israel, mas especialmente em Cristo e no seu povo, não foi apenas para glorificar Israel, mas para trazer luz e justiça às nações. [160] Na verdade, estas promessas serviram de grande estímulo para Paulo (como deveriam ser também para nós) quando ele, num acto de grande ousadia, decidiu ampliar a sua visão evangelista para alcançar os gentios. [161]

Assim, Deus fez de nós o seu "povo exclusivo", não para nos tornarmos os seus favoritos e nos isolarmos, mas para que fôssemos suas testemunhas: "para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz". [162]

Portanto, a doutrina da predestinação divina promove humildade, não arrogância; segurança e não apreensão; responsabilidade e não apatia; santidade e não complacência; missão, não privilégio.

Isso não significa que não existam problemas, mas é uma indicação de que estes são mais intelectuais do que pastorais. E, o ponto que Paulo quer enfatizar no versículo 29 é, com toda a certeza, pastoral. Tem a ver com dois propósitos práticos da predestinação de Deus.

 

O primeiro é que nós devemos ser conformes [viver de conformidade com] à imagem de seu Filho. Ou, dito da forma mais simples possível, o eterno propósito de Deus para o seu povo é que nos tornemos como Jesus.

O processo de transformação começa aqui e agora, no nosso carácter e conduta, por meio da obra do Espírito Santo, [163] mas só será completado e aperfeiçoado quando Cristo vier e nós O virmos, [164] e quando nossos corpos se tornarem como o corpo da Sua glória. [165]

 

O segundo propósito da predestinação de Deus é que, como resultado de nos tornarmos conformes à imagem de Cristo, Ele passe a ser o primogénito entre muitos irmãos, desfrutando da comunhão da família como também da prerrogativa de ser o primogénito. [166]

 

Vamos agora à terceira afirmação de Paulo: E aos que predestinou, também chamou (30a).

A chamada de Deus é a aplicação histórica da sua predestinação eterna. a Sua chamada chega às pessoas por meio do evangelho; [167] quando esse evangelho lhes é anunciado com poder e elas lhe respondem com a obediência da fé, aí é que se sabe que Deus as escolheu. [168]

Assim, a evangelização (o anúncio do evangelho), longe de se tornar supérflua em virtude da predestinação de Deus, é indispensável, pois é exactamente ela o meio proporcionado por Deus para que a sua chamada chegue às pessoas e desperte a sua fé. Fica, pois, evidente que aqui, quando Paulo fala da "chamada de Deus", não se trata daqueles apelos generalizados do evangelho, mas sim da convocação divina que levanta os espiritualmente mortos e lhes dá vida. Geralmente chama-se a isso de chamada "efectiva" de Deus. Aqueles a quem Deus dirige essa chamada (30) são os mesmos que "foram chamados de acordo com o seu propósito" (28).

 

Em quarto lugar, aos que chamou, também justificou (30b).

A chamada efectiva de Deus capacita aqueles que O ouvem a crer e, aqueles que crêem , são justificados pela fé. Como a justificação pela fé é um assunto dominante nos capítulos anteriores desta carta de Paulo, não há necessidade repetir o que já foi dito, a não ser, talvez enfatizar que a justificação é muito mais do que o simples perdão ou absolvição, ou mesmo aceitação; é uma declaração de que nós, pecadores, agora somos justos aos olhos de Deus, pois Ele conferiu-nos o status de justos, que na verdade se trata da justiça do próprio Cristo. É "em Cristo", em virtude da nossa união com Ele, que nós fomos justificados. [169] Ele fez-se pecado com o nosso pecado, para que nós pudéssemos tornar-nos justos com a Sua justiça. [170]

"aos que justificou, também glorificou" (30c). Já por diversas vezes Paulo usou o substantivo "glória". Trata-se essencialmente da glória de Deus, a manifestação do seu esplendor, a glória da qual todos os pecadores estão destituídos (3:23), mas que se regozijam na esperança de recobrar (5:2). Paulo promete também que, se participarmos dos sofrimentos de Cristo, iremos participar também da sua glória (8:17), e que a própria criação irá experimentar um dia a liberdade da glória dos filhos de Deus (8:21). Agora, ele usa o verbo: aos que justificou, também glorificou. O nosso destino é receber corpos novos num mundo novo, e ambos serão transfigurados com a glória de Deus. Muitos estudiosos percebem que o processo da santificação, que ocorre entre a justificação e a glorificação, foi omitido no versículo 30. No entanto, ele está implícito ali, tanto na alusão a sermos conformados à imagem de Cristo, como na preliminar necessária para a nossa glorificação. Pois "santificação é glória iniciada; glória é santificação consumada". [171] Além disso, tão certo é esse estágio final que, embora ainda se encontre no futuro, Paulo coloca-o no mesmo tempo aoristo, como se fosse um facto passado, tal como tem usado para os outros quatro estágios que já são passado. É o assim chamado "passado profético".

James Denney escreve que "o tempo da última palavra é impressionante. É a mais ousada antecipação de fé que o próprio Novo Testamento contém". [172]

 

Vimos aqui, portanto, as cinco afirmações incontestáveis apresentadas por Paulo. Deus é retratado como alguém que se move irresistivelmente de um estágio ao outro; de uma presciência e predestinação eternas, através de uma chamada e uma justificação históricos, para a glorificação final do seu povo numa eternidade futura. Faz-nos lembrar uma cadeia composta de cinco elos inquebráveis.

 

NOTAS:

 [138] Sl. 1.6; 144.3; [139] Os 13.5; [140] Am 3.2; [141] Cf. 1 Pe 1.2; [142] Murray, vol. I, p. 317; [143] Ibid., p. 318; [144] Dt 7.7s.; cf. Ef 1.4s; [145] Ef 1.5,9,11; 3.11; [146] Ef 1.4; [147] 1 Co 2.7; 2 Tm 1.9; cf. 1 Pe 1.20; Ap 13.8; [148] Vaughan, 9. 163; [149] 2 Sm 7.22ss; cf. Êx 19.3ss; Dt 7.6; 10.15; 14.2; Sl 135.4. [150] Edições Vida Nova, 1961; [151] Ibid., pp. 13ss. [152] Ef 1.6,12.14; [153] Ap 5.11ss; [154] Lutero (1515), p. 371; [155] Packer, op. cit., p. 21. [156] Jo 6.44. [157] Jo 5.40. [158] Ef 1.4; cf 2 Tm 1.9. [159] Gn 12.1ss. [160] Is 40.1ss; 49.5ss. [161] Ver; por exemplo, At 13.47; 26.23. [162] 1 Pe 2.9ss. [163] 2 Co 3.18. [164] 1 Jo 3.2ss. [165] 1 Co 15.49; Fp 3.21. [166] Cf. Cl 1.18. [167] 2 Ts 2.13s. [168] 1 Ts 1.4s. [169] Gl 2.17. [170] 2 Co 5.21. [171] Bruce, p. 168. [172] Denney, p. 652. 

 

Fonte: STOTT, John. A Mensagem de Romanos. Trad. Silêda e Marcos D S Steuernagel. 1ed. São Paulo: ABU Ed., 2000. 528p.; pp. 300-306.

 

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