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Entenda a Palavra de Deus

Entenda a Palavra de Deus

E o Divórcio?

"Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério." - Mateus 5:31-32

 

Este é um assunto muito sensível... Peço a Deus que me capacite à medida que compartilho a minha opinião acerca deste assunto.

Infelizmente, nos últimos anos, não há muita diferença entre a quantidade de divórcios no "mundo versus igreja". Este fenómeno deve-se ao facto de muitos, apesar de andarem na igreja, não assumirem o compromisso e de partirem para o casamento levianamente, com a ideia: "Se não der certo, cada um vai para o seu lado!"

Entendam: se partirem para um compromisso que deveria ser para toda a vida, até que a morte os separe, com este ideal: "Se não der certo, cada um vai para o seu lado!"... o divórcio será inevitável.

Eu divorciei-me... e voltei a casar.

Quando conheci o meu ex-marido, tinha 14 anos e ele tinha 26. Eu acreditava que o casamento era para toda a vida. Faltava quase um mês para fazer 16 quando tive a minha primeira filha e 19 quando tive o segundo. 

Estava grávida da minha filha quando apanhei a primeira bofetada, por volta das 6 h da manhã em plena rua... Foi a primeira bofetada a anunciar muitas e muitas agressões, insultos e humilhações. Também percebi, nessa altura, que ele bebia demais e se tornava ainda mais violento quando estava bêbado. Por volta dos 20 anos, tentei pela primeira vez, separar-me. Ele chorou, implorou e quando percebeu que eu estava irredutível partiu para a violência. A violência foi de tal ordem que, mais uma vez, o medo venceu-me e eu cedi. Foi nessa altura que fomos a um culto e nos convertemos. Ele deixou de fumar, de beber e de me bater, eu perdoei-lhe e decidimos casar no civil.

O novo homem que ele parecia ser deu-me confiança para acreditar novamente e investir no nosso casamento. Depois de casados, ele decidiu que seria melhor irmos para o Brasil (ele não via a família há muitos anos e o futebol tinha-lhe fechado as portas devido às bebedeiras frequentes) para termos uma vida melhor.

Fui baptizada no Brasil. Ao fim de um ou dois meses, ele saíu da igreja, voltou a fumar, a beber e a bater-me. Aconteceram coisas tão más que não vou compartilhar aqui e que me levaram ao limite. Resolvi ter uma conversa com o meu pastor. Disse-lhe que não aguentava mais, que me queria separar (não falei em divórcio) e  expliquei-lhe todos os motivos. Ele ouviu-me atentamente e perguntou-me se havia infidelidade da parte do meu ex. Quando lhe respondi que não (poderia ter dito que sim, mas era mentira) ele disse-me para continuar a aguentar tudo como uma boa esposa cristã e que, caso optasse pela separação, seria excluída da comunhão da igreja porque Deus só permitia o divórcio em caso de adultério e, como o meu caso não era esse...

Saí de casa, e tive que sair da igreja. Não me divorciei legalmente e só passados mais de dez anos, já ele tinha 2 filhas com outra pessoa, pedi o divórcio. Depois de me separar, ainda estive dois anos no Brasil e ele, além de nunca me ter dado um cêntimo para o sustento dos nossos filhos,  perseguiu-me, agrediu-me e aterrorizou-me até  que voltei [fugi] para Portugal com os meus filhos e, graças a Deus, criei-os com a ajuda dos meus pais. Ponto final.

O pastor baseou-se nas palavras proferidas por Jesus Cristo em Mateus 5:31-32 para dar o veredicto que me excluiria da igreja caso optasse pelo divórcio...

Mas, ele esqueceu-se que a palavra "fornicação" ou "adultério" na Bíblia, não se refere apenas ao acto sexual. Muitas vezes ela refere-se à idolatria e à desobediência do povo de Deus. Vejamos: "E outro anjo seguiu, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua fornicação." Apocalipse 14:8 como podemos perceber: cidades não têm relações sexuais!

Deus abomina o divórcio! É verdade! Mas Ele também abomina o adultério! Que adultério?

_ Tudo o que adultere o Seu santo propósito para o casamento e o compromisso ou aliança que fazemos perante Ele!

Segundo a Sua Palavra, o casamento é um compromisso no qual existem: amor, deveres e obrigações.

A mulher deve estar sujeita ao marido, "Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;" Efésios 5:22 MAS, este dever da mulher obedece a uma obrigação do marido: "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela," Efésios 5:25

Quem ama a esposa como Cristo amou a Igreja, não viola, não maltrata, não humilha e não destrói o alvo desse amor.

Quando os maridos transformam as esposas em capachos, meros objectos que usam e abusam conforme a sua vontade, adulteram o significado do casamento. Há adultério, há motivo para divórcio.

Limitar o direito ao divórcio a um adultério pura e simplesmente sexual é falta de entendimento, é produto de um machismo obsoleto que visa tratar a mulher como um ser inferior,  alguém que tem que se sujeitar a ser mal-tratada toda a vida só porque não nasceu homem e, não conseguiu casar com um Homem digno do nome.

 

Sou contra o divórcio por dá-cá-aquela-palha, sou contra o divórcio resultante da falta de perdão mútuo, sou contra o divórcio que resulta da incapacidade de investir num compromisso que se jurou ser "até que a morte nos separe". Não acredito que Deus se agrade da forma leviana como muitos partem para o divórcio e para um novo casamento. Mas, também creio, que Deus não se agrada da forma como muitos partem para o casamento, sem nada mais que não seja uma grande paixão que, como todas as paixões tende a esfriar com o tempo. É preciso que haja amor e um compromisso sério com a promessa que fazemos.

 

Quando me separei, acreditava sinceramente que não voltaria a casar. Achava que o casamento não valia a pena... A verdade é que voltei a casar passados mais de dez anos. Hoje, ao fim de 16 anos de casamento (19  desde que começamos a namorar), sinto-me encorajada porque entendi que o romance e a paixão são coisas belas e que reapaixonarmo-nos vez após vez é importante. Apaixonarmo-nos de novo após os terríveis acontecimentos que nos pareciam o fim, só é possível se elevarmos a aliança que fizemos acima das afeições e do romance.

 Smedes, já velho, talvez a fazer as bodas de ouro, escreveu um artigo sobre "O poder da promessa no casamento", ele disse:

 

"O casamento é uma aliança! Deus criou-o e, como Seus filhos, quando casamos fazemos uma aliança. As afeições existem e acabam; elas só renascem quando existe uma base sólida. A minha esposa teve cinco maridos; cada um deles era eu. E, a única coisa que unia os cinco era a minha promessa. Prometi ser-lhe fiel, amá-la, respeitá-la e cuidar dela todos os dias da minha vida, "até que a morte nos separe."

Ele queria dizer que, todos nós mudamos, maridos e esposas. Ou, como escreveu Stanlley Hanerwas: "casamos sempre com a pessoa errada, mesmo sendo a pessoa certa; no casamento, quando o casal está junto, um muda o outro!"

 

A base do casamento não pode ser o sentimento! Não passa por dizer "Somos almas gêmeas!", porque no dia a dia, elas deixam de ser gêmeas. A base do casamento é a promessa, a aliança que fazemos um com o outro. Dirigindo-se a um casal de jovens que pretendiam casar, Bonhoeffer disse-lhes:

 

"A partir desse dia a aliança sustenta o amor, não é o amor que sustenta a aliança!"

 

Eu sei que isto, dito assim, parece transformar o casamento numa "obrigação"... mas é neste solo que as flores crescem! Imagine o seu casamento como um jardim... Se estivermos na época em que as flores murcham, será que a solução é arrancá-las? Não! O solo da aliança, o solo da promessa, o solo sem divórcio é o solo onde as flores pode reflorescer vez após vez. A renovação da aliança  não é apenas um acto da nossa vontade, ela deve basear-se na Nova Aliança, no evangelho e em Quem Deus é. Sejamos perseverantes em guardar a promessa, olhando para a Aliança entre Cristo e a Igreja! Mentimos sobre Cristo e a Igreja quando abandonamos a Aliança que fizemos como casal. Antes de, ou durante o divórcio.

 

Acabei por falar mais no "casamento" do que no "divórcio" que dá título ao texto... talvez porque o divórcio seja o que requer de nós menor empenho e investimento, ao contrário do casamento. Divórcio, muitas vezes, não é solução; é apenas o mau resultado da incapacidade de perdoar e de ser fiel a um compromisso.

 

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