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Entenda a Palavra de Deus

Entenda a Palavra de Deus

Deixai a mentira e falai a verdade - 1

“Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros” (Ef 4:25)

 
Argumentos Tendenciosos do Pastor Dave Hunt Comentados

Num grupo no Facebook, vi um tópico onde um arminiano cola este artigo do conhecido líder baptista fundamentalista Dave Hunt, intitulado ‘O lado ‘B’ do Calvinismo em Genebra’. Resolvi dar minhas considerações sobre tal artigo aqui:

"Como um bom cidadão desfrutando a bênção do Imperador e crendo na igreja estatal que Constantino estabeleceu, Agostinho perseguiu e até mesmo sancionou a morte dos Donatistas e outros cismáticos, como nós já vimos. Gibbon nos fala que a medida severa contra os Donatistas “recebeu a aprovação fervorosa de Santo Agostinho [e assim] grande parte foram reconciliados [forçados a voltar] à Igreja Católica”.[13]
De Agostinho foi dito que “a própria grandeza do seu nome tem sido o meio de perpetuar os erros mais grosseiros que ele mesmo propagou. Mais do que ninguém, Agostinho encorajou a doutrina perniciosa da salvação pelos sacramentos de uma igreja terrena organizada, que trouxe consigo rituais sacerdotais com todo o mal e misérias que implicaram no decorrer dos séculos"

Resposta: (a) Não sei se estas acusações contra Agostinho são verdadeiras. Mas, ainda que Agostinho tivesse realmente concordado com a perseguição e a morte dos donatistas, em que é que isso condenaria ou provaria que a sua soteriologia [doutrina da salvação] estava errada? As más decisões (ou pecados) de Agostinho são motivo para atirar para o lixo todas as suas doutrinas? Neste caso, ao matar Urias (2 Sm 12:9), deveria Davi ter os seus salmos rejeitados? Mais uma vez temos o 'argumentun ad hominem', como única refutação e arma dos arminianos. 

 

Aproveitando o comentário do Dave Hunt, devo esclarecer que um dos grupos que defendia a mesma coisa que os donatistas, foram os anabatistas do século XVI, que também eram tão intolerantes quanto os que partilhavam as crenças dos reformadores. Entre os anabaptistas haviam aqueles que não só ensinavam, mas defendiam e praticavam extermínio contra os seus oponentes. Por exemplo, o teólogo baptista Timothy George menciona que os anabaptistas "saquearam igrejas e mataram inocentes" (Teologia dos Reformadores, p.256). Ainda segundo Timothy George, para estes anabaptistas, todos aqueles que recusavam o rebaptismo "deviam ser mortos" (Ibidem, p.256). Um eminente líder anabaptista, Balthasar Hubmaeir (1480-1528), de acordo com o historiador Justo Anderson, defendia "a necessidade da espada" (Historia de Los Bautistas, Tomo II, p.41). Outro líder anabaptista, Melchior Hoffman (1495-1543), de acordo com o historiador arminiano Justo Gonzales, afirmava que "seria necessário os filhos de Deus pegarem armas contra os filhos das trevas" (A Era dos Reformadores, p.102). E isso, sem contar que, falando sobre os baptistas ingleses do século XVII, de acordo com o historiador baptista Justo Anderson, "a maioria dos baptistas ingleses rejeitaram o pacifismo" (Historia de Los Bautistas, Tomo II, p.95).

 
(b) Bem, se o facto de Agostinho ter ensinado a regeneração baptismal serve para se rejeitar o agostinianismo ou o calvinismo, então o mesmo facto de que a Igreja Romana, os Mórmons, as Testemunhas de Jeová e a IURD ensinarem simultaneamente a regeneração baptismal e a soteriologia arminiana também serve para se rejeitar o arminianismo?

(c) O teólogo arminiano Claudionor Corrêa de Andrade, diz que Agostinho foi "o maior teólogo da igreja primitiva" (Dicionário Teológico [edição de 2001], p.297). E os historiadores arminianos A. Knight e A. Anglin, falando de Agostinho, dizem:

 
"Mas Deus que vê o fim desde o princípio, já tinha preparado um homem para combater esse povo inimigo (os pelagianos). Este homem foi Agostinho, bispo de Hipona; ele foi uma das luzes mais resplandecentes que jamais brilharam na igreja [...] Depois da sua conversão, Agostinho esteve retirado pelo espaço de três anos, e durante esse tempo estudou as Sagradas Escrituras com muito aproveitamento. Quando tornou a aparecer em público, foi ordenado presbítero e foi um pregador célebre em Fippo Rígio, onde alguns anos mais tarde foi elevado a bispo. Por todo o resto de sua vida, continuou a ser um fiel ministro da verdade, e distinguiu-se principalmente pela habilidade e energia com que combatia as doutrinas de um herege, Mani, e as de Pelágio [...] este bispo fiel morreu em Hipona, no ano 430..." (História do Cristianismo, [CPAD], pp.66-68).

Outro escritor, Michael Palmer, refere-se a Agostinho como "o indivíduo mais importante da Igreja depois do período apostólico" (Panorama do Pensamento Cristão, [CPAD], p.118). E a revista "Defesa da Fé" (de maioria arminiana), diz dele:

"Ficou conhecido como o filósofo e teólogo de Hipona. Polemista capaz, pregador de talento, administrador episcopal competente, e teólogo notável, criou uma filosofia cristã que continua válida até hoje em sua essência" (Ano 7; nº 51 - Dezembro de 2002, p.21).
 
"De Agostinho a Calvino. Não há dúvida de que João Calvino ainda via a igreja de Cristo pelos olhos do Catolicismo Romano. Ele viu a igreja (como Constantino a moldou e Agostinho a cimentou) como uma parceira do estado, que o estado aplicava a ortodoxia (como a igreja estado a definia) sobre todos os seus cidadãos. Calvino aplicou a sua formação jurídica e o seu zelo para o desenvolvimento de um sistema de Cristianismo baseado sobre uma visão extrema da soberania de Deus, que pela força absoluta da sua lógica, obrigaria reis e toda a humanidade a conformar todos os assuntos à justiça. Em parceria com a igreja, reis e outros governantes imporiam o Cristianismo Calvinista.
Daqueles que creram num reino milenar de Cristo na Terra, Calvino disse “a ficção é tão pueril para necessitar ou merecer refutação”.[15] Até Calvino estava preocupado que o reino de Cristo se iniciou com o seu advento sobre a terra e está em processo desde então. Rejeitando o reino futuro e literal de Cristo na terra por meio da sua segunda vinda, para estabelecer um reino terreno na terra sobre o trono de Davi em Jerusalém, Calvino aparentemente sentiu-se obrigado a estabelecer o reino por seus próprios esforços na ausência de Cristo."

Resposta: (a) Que calúnia e que absurdo ditos pelo Dave Hunt: que Calvino via a Igreja pela óptica romanista. O teólogo arminiano Severino Pedro da Silva, refuta isso, ao afirmar:

"João Calvino, o maior teólogo do cristianismo depois de Agostinho, bispo de Hipona [...] Na casa dele, Calvino discursava sobre o evangelho de Cristo com extraordinário fervor, para um grupo de crentes. Abandonando seus estudos, consagrou a plenitude das suas forças a propagar a Fé em Cristo, segundo se revela nas Escrituras Sagradas [...] o vemos completamente desvinculado da igreja romana e sendo o principal cérebro da reforma na França. Sua luz não pode ser escondida [...] por fim, Calvino foi se refugiar em Basileia, na Suíça, onde aos 25 anos de idade, deu ao mundo o seu famoso livro 'As Institutas da Religião Cristã', isto é, Instrução Básica na Religião Cristã', escrito em latim, e no qual deixou as grandes doutrinas cristãs fundamentais. Era um sistema completo de teologia, lógico e contundente, e exerceu uma profunda influência no pensamento da humanidade" (A Doutrina da Predestinação, [CPAD], pp.16-18).
 
Na visão de Severino Pedro, Calvino estava completamente desvinculado de qualquer forma de romanismo.
 
(b) Com relação à rejeição da crença no milénio literal de Cristo aqui na Terra, faltou ao Dave Hunt escrever um artigo a insultar Lutero e os primitivos luteranos, por haverem ensinado a mesma doutrina de Calvino, com referência ao milénio, negando a sua literalidade. A Confissão de Augsburgo (1530), diz:
 
"Aqui se rejeitam, outrossim, algumas doutrinas judaicas que também ao presente se manifestam e segundo as quais antes da ressurreição dos mortos um grupo constituído integralmente de santos e piedosos terá um reino terrestre e aniquilará todos os ímpios" (XVII).
 
"Em 10 de Novembro de 1536, a Confissão de Fé, que toda a burguesia e moradores de Genebra e súbditos em seus territórios deveriam jurar aderir e que Farel tinha redigido consultando Calvino, foi apresentado à cidade oficialmente. Era um longo documento com regras detalhadas cobrindo todas as coisas da membresia da igreja, frequência, pregação, obediência do rebanho e a expulsão dos ofensores. As autoridades de Genebra aprovaram o documento em 16 de Janeiro de 1537. “Em Março, os Anabatistas foram banidos. Em Abril, sob a instigação de Calvino [uma inspeção casa a casa foi lançada] para garantir que os moradores de Genebra abraçaram a Confissão de Fé […] Em 30 de Outubro houve uma tentativa de arrancar uma profissão de fé de todos os hesitantes. Finalmente, em 12 de Novembro, um edito foi emitido declarando que todos os recalcitrantes ‘[que] não desejavam jurar à Reforma foram ordenados deixar a cidade’ […]”.[16]
“A Reforma”? Houvera variações e diferenças entre várias facções quando a Reforma brotava, de Lutero a Zwinglio. Mas em Genebra, somente o calvinismo seria conhecido como “A Reforma” e “Teologia Reformada”. Essa reivindicação presunçosa ainda é defendida pelos calvinistas de hoje em todo o mundo.
A primeira tentativa de Calvino falhou. Boettner reconhece, “devido à tentativa de Calvino e Farel de forçar um sistema tão severo de disciplina em Genebra, tornou necessário para eles deixarem a cidade temporariamente”. [17]"
 
Resposta: Os historiadores arminianos A. Knight e W. Anglin, escreveram sobre a primeira influência de Calvino sobre Genebra:
 
"[...] firmou-se em Genebra. Foi nomeado professor de teologia e começou um árduo ministério de vinte e oito anos, como pastor de uma das mais importantes igrejas da cidade; e aqui estendeu logo a sua influência a todos os países da Europa [...] foi ele considerado o inimigo mais perigoso e implacável de Roma do que Lutero [...] Mas o povo de Genebra não podia desde logo habituar-se às medidas de Reforma que Calvino introduziu. Toda a cidade havia caído no vício e no papismo, e os seus novecentos padres governavam a consciência do povo, que não gostava das restrições que Calvino punha aos seus cantos, às suas danças, e a outros divertimentos mundanos nem tampouco tolerava as suas censuras severas aos pecados menos públicos a que muitos não eram estranhos; e quando por fim os proibiu de virem ao altar e os mandou embora com palavras de censura, o povo levantou-se em massa e expulsou-o da cidade" (História do Cristianismo, p.253).
 
A grande questão da aversão do povo de Genebra à disciplina de Calvino é o facto do povo genebrino estar acostumado a viver na licenciosidade do pecado e não querer abandonar tal prática.
 
"O Retorno Triunfante de Calvino. Três anos depois, no entanto, frente à oposição Católica de dentro e à ameaça de intervenção armada pelos Católicos Romanos de fora, o conselho da cidade de Genebra decidiu que eles precisavam das fortes medidas de Calvino e o convidaram a voltar. Ele entrou na cidade em 13 de Setembro de 1541. Dessa vez ele acabaria por conseguir impor sua versão da Reforma sobre os cidadãos de Genebra com uma mão de ferro. Seu primeiro ato foi o de entregar ao conselho da cidade suas Ecclesiastical Ordinances, que foram adotadas em 20 de Novembro de 1541. Stefan Zweig nos diz:
Uma das mais memoráveis experiências de todos os tempos iniciou quando esse homem magro e severo entrou no portão Cornavian [de Genebra]. Um estado [a cidade-estado murada de Genebra] seria convertida em um mecanismo rígido. Almas inumeráveis, pessoas com incontáveis sentimentos e pensamentos, foram compactados em um sistema único e todo-abrangente. Essa foi a primeira tentativa [protestante] de fazer uma imposição na Europa […] uma imposição uniforme sobre uma população inteira.
Com uma sistemática meticulosa, Calvino começou a trabalhar para a realização do seu plano de converter Genebra no primeiro Reino de Deus na terra. Era para ser uma comunidade sem corrupção, desordem, vícios ou pecados; devia ser a Nova Jerusalém, um centro de onde a salvação do mundo radiaria […] toda a sua vida foi devotada a serviço dessa única ideia.[18]
A intenção de Calvino de estabelecer um governo eclesiástico ocuparia a maior parte do resto de sua vida. Embora reconhecendo a influência e o poder de Calvino, o Pequeno Conselho dos Sessenta e o Grande Conselho dos Duzentos, responsáveis pelas questões civis, resistiram ser assumidas por uma autoridade religiosa (Consistório) sobre o qual Calvino ascendeu. A luta pelo poder continuou por anos, os conselhos até mesmo buscando reter o controle sobre algumas disciplinas na igreja tais como as excomunhões, com Calvino se recusando a ceder desafiadoramente.
Finalmente, em Fevereiro de 1555, os partidários de Calvino ganharam a maioria absoluta no Conselho. Em 16 de Maio houve uma tentativa de rebelião contra a atitude de Calvino de expulsar certos oficiais libertários civis da Ceia do Senhor.[19] Os líderes do motim que fugiram de Genebra para Bern foram sentenciados à morte à revelia. Quatro deles que não conseguiram escapar foram decapitados e esquartejados e partes dos seus corpos foram pendurados em locais estratégicos como advertência.[20] Evocando a frase “capangas de Satã” que ele usou anos antes contra os Anabatistas, Calvino justificou essa barbaridade: “Aqueles que não corrigem o mal quando podem fazer e seus ofícios requerem, são culpados”.[21]
 
Resposta: Os historiadores arminianos A. Knight e W. Anglin revelam que depois do povo expulsar Calvino, viu-se totalmente imerso na iniquidade e na heresia, a ponto de clamar publicamente pela volta de Calvino:
 
"Mas em breve quiseram que ele voltasse outra vez. A cidade estava em desordem, devido aos encolerizados bandos de papistas, e libertinos, e a sua presença era ali muito necessária. Os próprios que o tinham expulsado começaram a clamar em altos brados pela sua volta. 'Chamemos de novo o homem que queria reformar a nossa fé, a nossa moral e as nossas liberdades',  diziam eles. E assim no ano de 1540, foi resolvido pelo Conselho dos Duzentos que, com o fim de promover a glória de Deus, se procurassem todos os meios para que o mestre Calvino voltasse como pregador" (História do Cristianismo, p.254).
 
Outra autoridade arminiana, o Pr. Abraão de Almeida, pormenoriza o resultado da acção espiritual de Calvino sobre Genebra:
 
"Instado por Farel, João Calvino aceitou liderar a Reforma naquela cidade e pôs a mão à obra [...] Vai para Estrasburgo, mas em 1541 retorna a Genebra e leva avante a tarefa de fazer daquela cidade turbulenta e dissoluta um modelo de um centro protestante para a difusão da Palavra de Deus. [...] Trabalhando diuturnamente durante o seu longo ministério de vinte e quatro anos, Calvino praticamente conseguiu o seu intento. A Igreja, bem organizada, possuía um presbitério que vigiava a conduta do povo e dos ministros; um serviço de assistência social, a cargo de diáconos, e uma academia onde se ensinava teologia e onde se preparavam para a evangelização de outros povos. Enfim, Genebra tornou-se uma cidade notável, pela ordem, pela cultura e pelo cristianismo bíblico que era ali ardorosamente vivido [...]Por sua obra em Genebra, Calvino alcançou três benefícios para o protestantismo em geral. A vida moral da cidade foi exemplo do que a fé reformada podia realizar, e daí o poder da sua propaganda. Genebra foi a cidadela de refúgio para os perseguidos por causa da Reforma. Para esta cidade livre, veio gente da França, Holanda, Alemanha, Escócia e Inglaterra. Os refugiados encontraram nela um lar apropriado e foi também um lugar de preparo para os líderes do Protestantismo. Em sua academia e no ambiente da cidade, foram preparados ministros devotados, instruídos e destemidos, que se espalharam como missionários da reforma, pelos países onde esta ainda não havia entrado" (A Reforma Protestante [CPAD], pp.107,108).
 
Por fim, a revista "Defesa da Fé" (Ano 7;nº 51 - Dezembro de 2002), falando de Calvino, diz:
 
"Converteu-se ao protestantismo em 1557 [...] Foi grandemente influenciado pelos sermões de Lutero. Sem encontrar possibilidades de uma reforma religiosa em Paris, mudou-se para a Suíça, onde escreve a sua obra mais famosa: 'A Instituição da Religião Cristã'. Talvez nenhum livro sagrado publicado no século XVI tenha produzido efeitos tão abrangentes. De Paris, mudou-se para Genebra, na Suíça. Nesse período, devido à sua presença em Genebra, a Europa religiosa voltou os seus olhos para lá e, de fato, Calvino contribuiu para que a cidade alcançasse uma feição cosmopolita. O ensino calvinista floresceu na sua universidade e na Academia por ele fundada em 1559. A literatura impressa em Genebra inundou a Europa por meio do mercado livre, sendo vendida clandestinamente; os livros e os folhetos [...]"
 
"Como seus antecessores, Calvino fazia distinção entre Igreja Visível e a Invisível... foi considerado o maior teólogo da cristandade... João Calvino envia (em 1556) ao Brasil um grupo de pastores reformados, que se fixam na 'França Antártica', uma das ilhas da baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Em 1557, os evangélicos franceses realizaram o primeiro culto protestante no Brasil, possivelmente, do Novo Mundo. também foram os autores da bela 'Confissão de Fé da Guanabara'" (pp.34,42-43).
 
Tirania em Genebra. Talvez Calvino pensasse que ele era o instrumento de Deus para forçar a Graça Irresistível (uma doutrina chave no calvinismo) sobre os cidadãos de Genebra, na Suíça _ mesmo sobre aqueles que provaram sua indignidade, resistindo à morte. Ele fez o seu melhor para impor a “justiça” irresistivelmente, mas o que ele impôs e a maneira com que ele impôs estavam longe da graça e dos ensinos e exemplos de Cristo.
Alguns daqueles que professam a fé “reformada” hoje, especialmente aqueles conhecidos como Reconstrucionistas, tais como os recentes Rousas J. Rushdoony, Gary North, Jay Grimstead e outros (incluindo organizações como Coalizão do Reavivamento), tomam a Genebra de Calvino como modelo para eles e assim esperam Cristianizar os Estados Unidos e então o Mundo. Muitos ativistas Cristãos de um apego menor à esperança de Calvino, da sua própria maneira, por meio de passeatas de protesto e organização de grandes blocos de votação, suficiente para forçar uma cidadania americana ímpia a uma vida piedosa. Ninguém trabalhou tanto e por tanto tempo tentando fazer isso do que Calvino. Durant [historiador católico romano] relata:
Para regular a conduta leiga, um sistema de visitas domiciliares foi estabelecida […] E os ocupantes foram questionados sobre todas as fases das suas vidas […] a quantidade e as cores das roupas permitidas, o número de pratos permitidos em uma refeição foram especificados por lei. Jóias e rendas foram desaprovadas. Uma mulher foi presa por arranjar seu cabelo de uma maneira imoral […]
Censura de imprensa foi usada e ampliada sobre os Católicos e precedentes seculares: livros […] com tendências imorais foram banidos […] falar desrespeitosamente de Calvino ou do clero era crime. A primeira violação dessas ordens era punida com uma advertência, violações posteriores com multas, persistir na violação com prisão ou banimento da cidade. Fornicação era punida com o exílio ou afogamento; adultério, blasfêmia ou idolatria com a morte[…] uma criança foi decapitada por agredir seus pais. Nos anos de 1558-1559 houve 414 processos por ofensas morais; entre 1542 e 1564 houve 76 banimentos e 58 execuções; a população de Genebra era na época de 20.000 pessoas.[24]
A opressão de Genebra não teria vindo sob a direção do Espírito Santo (“…onde o Espírito do Senhor está, há liberdade” [2 Coríntios 3.17]), mas sim da poderosa personalidade de Calvino e uma visão extrema da Soberania de Deus que negou o livre-arbítrio ao homem. Assim a “graça” tinha que ser imposta irresistivelmente em uma tentativa não-bíblica de infligir uma “santidade” sobre os cidadãos de Genebra. Em contraste à humildade, misericórdia, amor, compaixão, e longanimidade de Cristo, a quem ele amou e tentou servir, Calvino exerceu autoridade como o papado que ele desprezou. Além disso, ele criticou outros líderes protestantes por não fazer o mesmo:
Visto que os defensores do Papado são tão amargos, ousados na representação de suas superstições, que na sua fúria atroz eles derramam sangue de inocentes, isso deveria envergonhar os magistrados cristãos que na proteção da verdade autêntica, eles estão inteiramente destituídos do espírito.[25]
Os defensores de Calvino negam os fatos e tentam inocentá-lo do que ele fez, responsabilizando as autoridades civis. Boettner até mesmo insiste que “Calvino foi o primeiro dos Reformadores a exigir uma separação completa entre a Igreja e o Estado”. [26] De fato, Calvino não somente estabeleceu a lei eclesiástica, mas ele codificou a legislação civil. [27] Ele manteve as autoridades civis para “promover e manter o culto externo a Deus, defender a sã doutrina e a condição da igreja” [28] e ver que “nenhuma idolatria, nem blasfêmia contra o nome de Deus, nem calúnias contra a sua verdade, nem outras ofensas à religião surgisse e fosse disseminada entre o povo … [mas] impedir a verdadeira religião … de ser violada impunemente e abertamente e poluída pela blasfêmia pública”.[29]
Calvino utilizou a força civil para impor suas doutrinas particulares sobre os cidadãos de Genebra e os forçar. Zweig, que se debruçou sobre os relatos oficiais do Conselho da Cidade para o dia de Calvino, nos diz, “dificilmente haverá um dia, nos relatos das definições do Conselho da Cidade, em que nós não encontramos o comentário ‘é melhor consultar o Mestre Calvino sobre isso’”. [30] Pike nos relembra que foi dada a Calvino uma “Cadeira do Consultor” em todos os encontros das autoridades da cidade e “quando ele estava doente as autoridades viriam a sua casa para as suas secções”. [31] Ao invés de diminuir com o tempo, o poder de Calvino somente cresceu. John McNeil, um calvinista, admite que “nos últimos anos de Calvino e sob sua influência, as leis de Genebra tornaram-se mais detalhadas e mais rigorosas”. [32]
 
Resposta: É impressionante o uso repetitivo do ‘argumentum ad hominem’, para atacar a crença ou a doutrina de Calvino. Mas, uma vez que já demonstrámos acima que os anabaptistas e até os baptistas eram intolerantes, não vemos qualquer inteligência por parte de Dave Hunt em usar esse tipo de argumento velho e desgastado. No 3º Volume de “As Grandes Religiões” (1973, São Paulo), lê-se que “durante o ano de 1528, em Esslingen (na Suiça) um grupo de anabaptistas preparavam-se para instaurar o Reino de Deus através da força” (p.507). Ainda no mesmo 3º Volume da obra citada, o perfil de intolerância e ódio de um dos grandes expoentes do movimento anabaptista ‘Thomas Mkunzer’, aliado com a sua ideia pré-milienista é registado:
 
“Em 1525, os camponeses de Muhlausen desejavam autonomia. Nesse contexto, Munzer publicou um vigoroso manifesto revolucionário endereçado aos mineiros. Evocando o exemplo de Gideão e considerando-se seu herdeiro espiritual, organizou uma batalhão de trezentos homens: ocupavam uma posição de vanguarda na marcha de milhares de camponeses mal armados e mal preparados para a luta. As forças governamentais, desproporcionalmente maiores, estavam equipadas para uma verdadeira batalha. É provável que os príncipes se tivessem compadecido da multidão transtornada pelo profeta de Zwickau. E quisessem mesmos poupar-lhes a vida quando enviaram emissários com propostas de rendição e entrega do líder. Mas a decisão de Munzer de lutar contra os príncipes, aliada à esperança escatológica de que o Cristo seria entronizado numa era de felicidade, impossibilitou qualquer negociação. Melanchthon, ao escrever uma biografia de Thomas Munzer, reconstituiu os discursos que o líder revolucionário teria proferido ao seu exército. São palavras que demonstram o ânimo de Munzer e o clima emocional em que se encontravam seus seguidores: ‘Ataquemos fortemente os inimigos. Não temais o fogo de suas armas, pois deveis constatar que vos defenderei de todas as balas que vos lançarem’. Aproximadamente 8000 camponeses preparavam-se para a luta, orando e cantando hinos que invocavam a presença do Espírito Santo. É ainda Melanchthon quem conta: ‘Quando ele (Munzer) chegou diante dos príncipes, estes lhe perguntaram porque reunira aqueles pobres camponeses, levando-os à miséria. Respondeu, ainda arrogante, que agira bem e que sua intenção era castigar os príncipes porque se opunham ao evangelho’” (pp.502,503).

Ainda falando dos anabaptistas, diz a mesma obra:
 
“Ao tomarem de assalto a prefeitura e a praça do mercado, os adeptos da nova corrente religiosa conseguiram a liberdade de pregação. Muitos luteranos e católicos ricos, temendo a situação que se anunciava, fugiram de Munster levando seus bens. Os anabaptistas convidaram famílias inteiras das cidades vizinhas para se juntarem a eles na espera do fim glorioso dos tempos. Anunciavam que, exceto Munster, a Terra inteira seria destruída antes da Páscoa. Munster seria a Nova Jerusalém. Movidos por intenso ardor religioso, expulsaram todos os luteranos e católicos remanescentes, confiscando-lhes os bens” (As Grandes Religiões, Volume III, p.,508).

O teólogo baptista Timothy George revela que a atmosfera de ódio religioso estava impregnando todos os grupos religiosos da época, inclusive os anabaptistas:
 
“Kasper Schwenckfield, um dos reformadores espirituais, observou que com base na Bíblia, ‘os papistas amaldiçoam os luteranos, os luteranos amaldiçoam os zuinglianos, os zuinglianos amaldiçoam os anabaptistas e os anabaptistas amaldiçoam todos os outros’” (Teologia dos Reformadores, p.166).
 
“O Desespero da “Piedade” Imposta. Lamentavelmente, a despeito das ameaças e torturas, a Genebra de Calvino não era uma cidade santa, como as histórias otimistas selecionadas parecem indicar. Os relatos que sobreviveram do Conselho de Genebra desvendam uma cidade mais parecida ao resto do mundo do que os admiradores de Calvino gostam de admitir. Esses documentos revelam “um alto percentual de filhos ilegítimos, crianças abandonadas, casamentos forçados e sentenças de morte”. [55] A enteada e o Genro de Calvino estavam entre os muitos condenados por adultério. [56] Calvino fez o seu melhor, mas falhou. Ele não foi capaz de produzir entre os pecadores a sociedade ideal – a Cidade de Deus de Agostinho – que ele vislumbrara quando ele escreveu suas Institutas.
Os calvinistas ensinam que o não salvo, totalmente depravado pode responder a Deus somente em descrença, rebelião e oposição. White explica: “O homem não regenerado que é inimigo de Deus, deve, indubitavelmente, responder a Deus: de uma maneira universalmente negativa”. [57] Esse sendo o caso, por sua própria teoria, os esforços de Calvino em Genebra estavam fadados ao fracasso antes de se iniciarem!
Falando pela maioria dos calvinistas, R. C. Sproul explica que segundo a “Visão reformada da predestinação, antes da pessoa poder escolher a Cristo, ela deve nascer de novo” [58] Por um ato soberano de Deus. Como Calvino poderia estar certo que Deus fez esse trabalho no coração de todos em Genebra? Se Deus não predestinou cada cidadão de Genebra à salvação, então Calvino estava errado em tentar os forçar aos moldes cristãos. Ainda, a coerção até mesmo pela força era uma parte integral do sistema praticado por Calvino e seus sucessores imediatos.
Se os calvinistas de hoje não aprovam tais condutas, não pode o calvinismo que produziu tal tirania também estar errado em outros aspectos?
Quantos dos “eleitos” estavam lá em Genebra? Como Jay Adams destaca, ninguém, nem mesmo Calvino saberia. O calvinismo não tem nenhuma explicação de como o eleito poderia ter sido identificado com certeza entre os hipócritas que agiram como se estivessem entre os eleitos pelo comportamento, mas fez apenas por medo das conseqüências temporais. Não importa o quanto Calvino tentou, se Deus (segundo a doutrina de Calvino) não elegeu todos os cidadãos de Genebra a salvação (e Ele aparentemente não elegeu), então o mal ainda persistiria – embora não como ostensivamente em outras cidades desses dias.
Considerando os relatos aterradores das falhas de Calvino, uma pergunta aos reconstrucionistas de hoje, que abraçam o mesmo dogma, apesar disso eles crêem que serão capazes de impor vida piedosa sobre nações inteiras. Ou porque os evangélicos continuam a elogiar Calvino, o opressor de Genebra?”
 
Resposta: E que tipo de piedade tinham os anabaptistas do século XVI? Roubando, matando, confiscando bens, tomando a prefeitura à força? Vamos só relembrar:

"Entre os anabatistas haviam aqueles que não só ensinavam, mas defendiam e praticavam extermínio contra seus oponentes. Por exemplo, o teólogo batista Timothy George menciona que os anabatistas "saquearam igrejas e mataram inocentes" (Teologia dos Reformadores, p.256). Ainda segundo Timothy George, para estes anabatistas, todos aqueles que recusavam o rebatismo "deviam ser mortos" (Ibidem, p.256). Um eminente líder anabatista, Balthasar Hubmaeir (1480-1528), de acordo com o historiador Justo Anderson, defendia "a necessidade da espada" (Historia de Los Bautistas, Tomo II, p.41). Outro líder anabatista, Melchior Hoffman (1495-1543), de acordo com o historiador arminiano Justo Gonzales, afirmava que "seria necessário levar os filhos de Deus a pegarem em armas contra os filhos das trevas" (A Era dos Reformadores, p.102). E isso, sem contar que, falando sobre os batistas ingleses do século XVII, de acordo com o historiador batista Justo Anderson, "a maioria dos batistas ingleses rejeitaram o pacifismo" (Historia de Los Bautistas, Tomo II, p.95).
 
Continua:
 

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