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Entenda a Palavra de Deus

Entenda a Palavra de Deus

Diversão? Ou culto? - Urgente!

O CULTO EM TROCA DA DIVERSÃO: UMA ANÁLISE DAS PREGAÇÕES DE ALGUNS PASTORES

Um dos grandes problemas da igreja pós-moderna são aqueles que confundem pregação da Palavra de Deus com palestras de auto-ajuda, shows de unção esdrúxula ou uma espécie de Stand Up Comedy.
O grande problema disso é o enfraquecimento doutrinário da Igreja, pois se o lugar do ensino da Palavra de Deus está a ser negligenciado, como evitar heresias e distorções doutrinárias na igreja?
Muitas igrejas estão a confundir culto com diversão. A diferença é que o culto tem Cristo como o centro e não uma personalidade; a prioridade é a sua Palavra servindo a Deus em adoração e louvor com acções de graças. Já a diversão gira em torno de nós mesmos, a prioridade é agradar o público e o centro é o homem ou alguma personalidade, não Deus. Por isso, Paulo adverte os Coríntios quando fala da Ceia do Senhor e lembra um texto do VT, pois eles estavam a fazer da Ceia do Senhor um evento de diversão:

“Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou- se para divertir-se” (1Co 10.7).

Paulo usa o verbo grego παιζειν no infinitivo presente que significa exactamente “proporcionar riso ou fazer cântico engraçado” para traduzir a palavra “divertir”. A diversão é lícita, porém, quando é para banalizar a obra de Deus causa juízo, pois era isso que os Coríntios estavam a fazer com a Ceia do Senhor. Eles bebiam o vinho da Ceia, ficavam alegres demais e começavam gracejar no culto.

As igrejas, hoje, estão a trocar os cultos por shows de Stand Up ou de diversos tipos de diversão. Por isso, em muitas igrejas são colocados ringues de Vale Tudo [UFCs]; lideres vão fantasiados de Chapolim Colorado [Xavier] ou coisas que atraem as multidões para a diversão. Principalmente quando se trata de jovens. Acham que para atrair os jovens às igrejas ou para os levar a lerem a Bíblia precisam de fazer Bíblias atraentes, incluindo biografias de cantores gospels como a chamada Bíblia do Talles ou outras do género.
Há pastores que se têm destacado neste tipo de "culto". O lema do seu ministério é “Um Pastor Cheio de Graça”, que demonstra uma ambiguidade da palavra “Graça” no sentido de dádiva divina revelada em Cristo e o sentido de “engraçado” [que tem piada]. Na verdade, o segundo significado caracteriza-o melhor.

Pastores destes, geralmente, vão a igrejas cujas reuniões são cheias e que cobram um bilhete, seja com produtos não perecíveis ou uma certa quantia em dinheiro. A sua linguagem é bem informal cometendo erros até graves de Português e buscam sempre levar o seu público a dar umas valentes gargalhadas como se o seu grande objectivo ali fosse fazer pessoas rir e não pregar “todo o conselho de Deus”.

As suas pregações são temáticas e simples, com a leitura apenas de um verso ou uma Parábola, e usam sempre uma linguagem que provoque o riso ou citam textos com interpretações estranhas para que tenham piada.
Esse é um dos grandes problemas desse tipo de pregação. Como o objectivo é divertir as pessoas, eles precisam usar anedotas e coisas engraçadas com distorções sérias de alguns textos da Bíblia para os tornar engraçados.
Um dos exemplos está num vídeo que fala de vida com abundância em Jesus. Diz ele:

“O segredo é viver, querido. Não perca tempo com coisas medíocres. Aprenda com Jesus a viver. Aliás, como lição que essa não aprendi com Jesus, não. Mas deveria ter aprendido. Que Jesus é tão esperto que ele falou: Pai, eu vou à Terra. Vão cuspir ni mim (sic), vão conspirar, vão querer me matar, vão me pôr uma coroa de espinhos, vão me furar... Eu morro! … Agora, casar?! Essa loucura não vou fazer não!”

Essa declaração é dita sem nenhuma observação de que se trata de uma brincadeira e demonstra perigos em vários aspectos que eu gostaria de destacar aqui:

1. Jesus é apresentado como alguém que tem aversão ao casamento por não ter casado.
Essa ideia é perigosa, pois o modelo agora é o Senhor Jesus Cristo e, se for mal interpretado, pode-se causar problemas sérios com respeito ao que Cristo pensa sobre o casamento.
Cristo não casou com uma mulher porque a sua noiva é a sua Igreja:
“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25).

Embora que quando a Escritura fala de Cristo como noivo e a Igreja como noiva tenha o sentido metafórico, o aspecto de aliança, compromisso, doação e cuidado são os mesmos. Por isso é que Paulo citou Cristo e a sua Igreja para falar de relacionamento conjugal, senão, não teria sentido. Cristo não casou com uma mulher porque Ele veio como um Cordeiro, especificamente para morrer pela Sua Igreja:

"No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" (Jo 1.29)

Portanto, se Cristo não se casou não foi porque era um sofrimento, mas sim porque já tinha uma noiva prometida para que Ele pudesse morrer por ela e sacrificar-se em amor como um Cordeiro de Deus.

2. O casamento é retratado como um peso e um sofrimento terrível.
A ideia desse mundo é que o casamento é um peso e somente aqueles que não têm juízo é que se casam, pois, segundo alguns, é como se a pessoa se tornasse prisioneira ou deixasse o melhor da vida.
Infelizmente, o pregador que disse as palavras citadas acima dá a entender exactamente essa ideia. Em várias outras ocasiões foram contadas piadas [anedotas] com respeito ao casamento nas suas pregações, como por exemplo numa pregação em outro vídeo na qual ele afirma:

“Deus disse a Adão: Tu é (sic) feliz demais! Vai dormir que eu vou arrumar um poblema (sic) pra tu (sic)... É lógico que não é isso...”

Apesar de, nessa ocasião, ele afirmar que “não é isso”, por não estar assim no texto sagrado, não deixa de trazer uma mensagem subliminar de que o casamento é um peso. Mesmo assim, a declaração sobre Jesus, acima citada, é falada sem nenhuma advertência e observação.

O casamento é retratado na Bíblia como digno de honra (Hb 13.4) e foi valorizado por Jesus ao fazer o seu primeiro milagre exactamente nessa ocasião demonstrando o quanto era importante e motivo de alegria (Jo 2.1-11; Mt 9.15-16). O grande problema não está no casamento, mas no ser humano e nas suas relações. Qualquer que seja o relacionamento será penalizado pela natureza pecaminosa que herdamos. Alguns textos que são citados pelo "pregador" devem ser analisados:

Quando Paulo afirma: “E aos solteiros e viúvos digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo” (1Co 7.8). “Estás casado? Não procures separar- te. Estás livre de mulher? Não procures casamento” (1Co 7.27).

Paulo não está a dizer que ser solteiro é melhor do que estar casado. O que Paulo está a ensinar está no contexto de uma igreja que estava numa cidade que tinha uma cultura totalmente impura onde as mulheres e os homens se adequavam à adoração aos deuses que incluíam orgias de todo o tipo.
Paulo está preocupado com casamentos mistos que trariam maior problema como ele mesmo aconselha as mulheres e homens com seus cônjuges descrentes (1Co 7.12-17) e, por isso, ordena às viúvas que queiram casar que façam isso “no Senhor” (1Co 7.39).
Portanto, Paulo não está a exaltar a condição de solteiro, mas a ensinar que o casamento mal feito com pessoas com um hábito e práticas pagãs da cidade de Corinto poderia ser mais um problema para os irmãos e para a Igreja. O princípio não está em valorizar o ser solteiro, mas escolher ficar assim se um casamento for problemático diante de cônjuges que trazem um hábito e prática pagã que afecte a conduta cristã.
No entanto, em outra ocasião, Paulo exalta o casamento dando a entender que os demais irmãos e Cefas tinham o privilégio de ter uma irmã que os acompanhavam:
“A minha defesa perante os que me interpelam é esta: não temos nós o direito de comer e beber? E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?” (1Co 9.3-5).
Nesse texto fica implícito que Paulo compensa o que os demais apóstolos e Cefas já tinham naturalmente por serem casados, pois o princípio é que “não é bom que o homem esteja só”.
Em outra passagem, Paulo ensina que o casamento deve ser recebido com acções de graças e gratidão.
“Que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com acções de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade” (1Tm 4.3).
Nesse texto, Paulo adverte aqueles que se opõem ao casamento. O verbo grego κωλυω quer dizer “opor-se a alguma coisa”. Notemos que Paulo afirma que tanto os alimentos como o casamento são coisas que Deus criou para serem recebidos com acções de graças deixando claro que é uma bênção para a vida das pessoas.
O "pregador" que estamos a analisar também faz muitos eventos em lugares que não são igrejas como diz a publicidade num site:

“O projecto [...] PELO BRASIL terá início na segunda-feira (16/03) a partir das 19h no espaço Cantareira, em Niterói. Nele, o pastor [...] vai ministrar para casais e famílias abordando assuntos polémicos, que eventualmente, não poderiam ser pronunciados nos púlpitos de muitas igrejas. O primeiro lote dos ingressos já está sendo comercializado no valor de R$ 40,00 à venda ao site ...”

Eu pergunto-me quais serão os assuntos que não poderiam ser “pronunciados em púlpitos de muitas igrejas”?
Afinal de contas, o que é que não poderia ser pronunciado numa igreja que os seus membros possam ouvir noutro lugar?
Afinal de contas, o lugar é mais santo do que os membros da Igreja?

Segundo as Escrituras, nós somos o santuário de Deus (1Co 6.19) e quando estamos reunidos em qualquer lugar o Espírito de Deus habita entre nós (1Co 3.16). Portanto, o que não pode ser dito numa igreja, não deveria ser dito em lugar nenhum aos membros de uma igreja.
Quero concluir dizendo que não tenho absolutamente nada contra o amado pastor nem nada contra os animadores de auditório e artistas da fé. No entanto, quis alertar a igreja de um perigo e concluir dando alguns conselhos a todos aqueles que lerem esse texto, mesmo sabendo que serei odiado pelos idólatras de personalidades e incautos na fé:

1. Cuidado com reuniões e pregações nas igrejas que cobrem um ingresso para ouvir o pregador ou pastor.
2. Cuidado com reuniões que tragam pastores que venham intitulados de “profeta de Deus” e/ou “Apóstolo” – geralmente não são sadios na fé.
3. Cuidado com pregadores que passam muito tempo sem analisar o texto lido substituindo-o por piadas, testemunhos e opiniões sobre si.

 

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Autor: Mário Magalhães| Graduado em Teologia e Letras; graduando em Filosofia; mestre em Teologia Exegética e Educação e doutor em Educação.

Hoje, quem é que está a reger o acontecimentos na Terra? Deus? Ou o Diabo?

Quem é que está a reger os acontecimentos na terra hoje, Deus ou o diabo?
Que Deus reina supremo no céu é geralmente reconhecido; que não reina soberano sobre este mundo, é o que se assevera quase a uma única voz. Se não o dizem directamente, dizem-no indirectamente. Os homens estão a relegar mais e mais a Pessoa de Deus a um plano secundário, através das suas filosofas e teorias. Não somente se nega que Deus criou tudo através de sua acção pessoal e directa; mais do que isso, poucos são os que crêem que Deus tem qualquer preocupação imediata em regular as obras das suas próprias mãos. Pressupõe-se que tudo tenha sido ordenado segundo as "leis da natureza," abstractas e impessoais. Dessa forma, o Criador é banido da sua própria criação. Não devemos pois, ficar surpresos, se os homens, com os seus conceitos degradados, O excluem do âmbito das actividades humanas.
 
Em toda a cristandade, com excepções que quase não se podem levar em conta, mantêm-se teorias como a de que o homem determina a própria sorte e decide o seu destino através do seu "livre arbítrio." Que Satanás deve levar a culpa de boa parte do mal existente no mundo, admitem-no sem restrições aqueles que, apesar de terem muito a dizer quanto à "responsabilidade do homem", frequentemente negam a sua própria responsabilidade, atribuindo ao diabo aquilo que, de facto, procede dos seus próprios corações maus (Marcos 7:21-23).
 
Quem, entretanto, está a reger as coisas no mundo hoje - Deus ou o diabo?
Busquemos uma visão mental, séria e compreensiva do mundo. Com que cenário de confusão e de caos nos confrontaremos por toda parte! Predomina o pecado, campeia a ilegalidade, homens perversos e impostores estão, de facto, indo de mal a pior (II Timóteo 3:13). Hoje em dia, tudo parece desconjuntado. Tronos rangem, ameaçando sofrer colapso, dinastias milenares são subvertidas, povos entram em revolta, a civilização é um fracasso; metade da cristandade, ainda há pouco, estava entregue a uma luta mortal; agora, passado o conflito titânico, ao invés de termos um mundo "seguro para a democracia," percebemos que a própria democracia está longe de ser segura neste mundo.
A agitação, a insatisfação, a ilegalidade grassam por todos os lugares, e ninguém pode prever dentro de quão pouco tempo outra grande guerra deflagrará. Os estadistas quedam-se perplexos e abalados. Os corações dos homens "desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo" (Lucas 21:26). Coisas como essas dão a impressão de que Deus exerce pleno domínio?
 
Vamos, porém, confiar a nossa atenção ao campo religioso.
Depois de dezanove séculos de pregação do evangelho, Cristo ainda é "desprezado e rejeitado pelos homens". Pior ainda, Ele (o Cristo das Escrituras) está a ser proclamado e glorificado por muito poucos. Na maioria dos púlpitos modernos  Ele é esquecido e marginalizado. Apesar dos esforços desmedidos para atrair as multidões, as igrejas, na sua maioria, estão a ficar vazias, ao invés de se encherem. E, o que dizer do grande número dos que não frequentam a igreja? À luz das Escrituras, temos forçosamente de crer que os "muitos" estão no caminho largo, que leva à perdição, e que "poucos" estão no estreito caminho que conduz à vida. Muitos declaram que o cristianismo é um fracasso, e o desespero transparece em muitos rostos. Não poucos dos que pertencem ao Senhor sentem-se confusos, e sua fé está a ser severamente testada. E qual é a atitude de Deus? Ele está a ver e a ouvir? Um certo número daqueles que são reputados lideres do pensamento cristão emitiu a opinião de que Deus não pôde impedir a explosão desta última guerra, tão terrível, e que não teve a capacidade de acabar com ela. Dizia-se, e isso abertamente, que as condições estavam além do controle de Deus. Coisas como estas dão a impressão de que é Deus que governa o mundo?
 
Quem é que regula as coisas, nesta terra, hoje em dia: Deus ou o diabo?
Qual é a impressão fica na mente daqueles homens do mundo que, ocasionalmente, frequentam um culto evangélico? Quais são os conceitos formados por aqueles que ouvem, até mesmo pregadores considerados "ortodoxos", a afirmar que Deus perdeu o controle deste mundo? Será que os cristãos estão a crer num Deus decepcionado? A julgar por aquilo que se ouve do evangelista comum dos nossos dias, o ouvinte sério não é obrigado a concluir que ele representa um Deus tomado de intenções benévolas, incapaz, porém, de as levar a bom termo? Um Deus que deseja sinceramente abençoar os homens, embora estes não Lhe permitam fazê-lo? Logo, o ouvinte em geral não é forçado a acreditar que o diabo assumiu a primazia, e que Deus é mais digno de comiseração do que da nossa adoração?
 
Não parece que tudo indica que o diabo tem, realmente, mais a poder sobre as coisas desta terra do que Deus?
Tudo depende da forma como estamos a andar: pela fé, ou pelas aparências. Seus pensamentos, leitor, quanto ao mundo e ao relacionamento de Deus com o mundo, baseiam-se naquilo que você está a ver? Encare essa pergunta de modo sério e honesto. E, se você é um crente, provavelmente terá motivo para abaixar a cabeça, com vergonha e tristeza, e reconhecer que é assim. Infelizmente, na prática, andamos muito pouco "pela fé". O que é que significa "andar pela fé"?
 
Significa isto: os nossos pensamentos são formados, as nossas acções são reguladas, a nossa vida é moldada pelas Sagradas Escrituras, "porque a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo" (Romanos 10:17). É da Palavra da Verdade, e somente dela, que podemos aprender qual é o relacionamento entre Deus e o mundo.
 
Quem é que está a regular as coisas na terra, hoje em dia: Deus ou o diabo?
O que é que dizem as Escrituras? Antes de considerarmos a resposta directa para essa pergunta, digamos que as Escrituras predisseram tudo aquilo que agora vemos e ouvimos. A profecia de Judas está a cumprir-se. A comprovação dessa assertiva afastar-nos-ia para longe do tema do nosso estudo; o que, porém, temos em mente, de maneira especial, é esta frase do oitavo versículo "quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como rejeitam governo e difamam autoridades superiores".
 
Sim, até difamam a Dignidade suprema, o "Único Potentado, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores." A nossa época é, especificamente, uma era de irreverência, e, consequentemente, o espírito de insubordinação que não tolera qualquer restrição e que deseja arredar tudo quanto venha a interferir com a livre expressão da vontade própria, está a engolir rapidamente a terra, como se fosse um gigantesco tsunami. A geração que ora desponta fornece os ofensores mais flagrantes, e, na decadência e desaparecimento da autoridade dos pais, temos o precursor certo do colapso da autoridade civil. Portanto, tendo em vista a crescente falta de respeito pelas leis humanas, e a recusa de "dar honra a quem a merece," não nos deve causar surpresa que o conhecimento da majestade, da autoridade e da soberania do Legislador Omnipotente se relegue mais e mais para segundo plano, e que as massas tenham sempre menos paciência com aqueles que insistem sobre essas coisas.
 
Quem é que está a regular as coisas na terra, hoje em dia: Deus ou o diabo?
O que é que dizem as Escrituras? Se cremos nas suas declarações claras e positivas, não há lugar para a incerteza. Afirmam, vez após vez, que Deus está no trono do universo; que o ceptro está nas suas mãos; que Ele dirige todas as coisas "segundo o conselho da sua vontade." Afirmam não somente que Deus criou todas as coisas, mas também que o Senhor domina e reina sobre todas as obras das suas mãos. Afirmam que Deus é o "omnipotente", que a sua vontade é irreversível, que Ele é soberano absoluto em cada recanto dos seus vastos domínios. E, certamente, tem de ser assim.
 
Há apenas uma alternativa possível: ou Deus domina, ou é dominado; ou impera, ou é subalterno; ou cumpre a sua vontade, ou é ela impedida pelas suas criaturas. Aceitando-se o facto de que Deus é o "Altíssimo", o único Potentado e o Rei dos Reis, revestido de sabedoria perfeita e de poder ilimitado, não há como resistir à conclusão de que Ele é Deus de facto, e não apenas de nome.
 
Tendo em vista aquilo que acima referimos de maneira resumida, dizemos que as condições actuais requerem, urgentemente, uma nova análise e uma nova apresentação da omnipotência de Deus, da auto-suficiência de Deus e da soberania de Deus. De cada púlpito da nação precisa trovejar a verdade que Deus ainda vive, que Deus ainda observa, que Deus ainda reina. A fé está no crisol, testada pelo fogo; e não há nenhum lugar de descanso adequado para o coração e para a mente, a não ser no trono de Deus. O que se faz mister agora, como nunca antes, é a demonstração completa, positiva e construtiva da divindade de Deus. Enfermidades drásticas exigem remédios drásticos. As pessoas cansam-se de chavões e de meras generalizações - exige-se algo mais definido e específico. Um xarope adocicado pode servir para as crianças manhosas; um tónico de ferro, porém, é mais adequado para os adultos, e nada conhecemos com maior possibilidade de infundir vigor espiritual ao nosso ser do que a compreensão bíblica da plenitude do carácter de Deus. Está escrito. "O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e activo" (Daniel 11:32).
 
Estamos, sem dúvida, no limiar de uma crise mundial, e em todos os lugares os homens estão alarmados.
Mas, o Senhor Deus não o está! Ele nunca se deixa apanhar desprevenido. Não há emergência inesperada que O surpreenda,  pois Ele "faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Efésios 1:11). Portanto, embora o mundo seja tomado pelo pânico, a Palavra, para quem crê, é: "Não temais!" "Todas as coisas" se sujeitam a seu controle imediato: "todas as coisas" avançam segundo o seu eterno propósito, e, assim sendo, "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."
 
Tem que ser assim, porque "dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas" (Romanos 11:36).
Quão pouco se reconhece isso hoje em dia, mesmo entre o povo de Deus! Muitos supõem que Deus é pouco mais que um espectador distante, que não interfere de maneira directa nos assuntos da terra. É verdade que o homem tem vontade, mas Deus também tem vontade. É verdade que o homem é dotado de poder, mas Deus é o omnipotente. É verdade que, falando de modo geral, o mundo material é regulamentado por leis, mas, por detrás dessas leis, há o Legislador e Administrador, que as estabelece. O homem é somente uma criatura. Deus é o Criador, e, intermináveis eras antes de o homem ver a luz pela primeira vez, já existia o "Deus altíssimo" (Isaías 9:6); e antes da fundação do mundo foram feitos os seus planos; e, sendo o Senhor infinito em poder, ao passo que o homem é apenas finito, o seu propósito, o seu plano, não pode ser resistido ou impedido pelas criaturas que Ele criou com as suas próprias mãos.
 
Reconhecemos, sem hesitação, que a vida é um problema profundo, e que estamos rodeados de mistérios por todos os lados. Entretanto, não somos como os animais do campo - ignorantes da própria origem, sem consciência do futuro. Não: "Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética", da qual se diz: "... fazeis bem em atende-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos corações" (II Pedro 1:19).
E, de facto, fazemos bem em atender à Palavra da profecia, pois essa Palavra não teve origem na mente do homem, mas na mente de Deus, "porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo."
 
Dizemos uma vez mais, que esta é a Palavra a que devemos dar atenção. Ao abrirmos a Palavra, sendo instruídos por ela, descobrimos um princípio fundamental que deve ser aplicado a cada problema: ao invés de começar com o homem, para então avançar até chegarmos a Deus, devemos começar com o Senhor, para depois irmos descendo até o homem - "No princípio ... Deus ..." Aplique esse princípio à situação actual. Comece com o mundo na sua condição presente, procure raciocinar até chegar a Deus: tudo parecerá comprovar que Deus não tem qualquer ligação com o mundo.
Comece, porém, com Deus, e venha gradualmente até o mundo; e luz, bastante luz, se projectará sobre o problema. Porque Deus é santo, a Sua ira arde contra o pecado; porque Deus é justo, os Seus juízos caem sobre os que se rebelam contra Ele; porque Deus é fiel, cumprem-se as ameaças solenes da Sua Palavra; porque Deus é omnipotente, ninguém conseguirá resistir-Lhe, e, muito menos ainda, subverter-Lhe o conselho; e porque Deus é omnisciente, nenhum problema pode vencê-Lo, nenhuma dificuldade pode frustrar-Lhe a sabedoria. É exactamente porque Deus é o que é que hoje estamos a ver na terra o que se vê - o começo da execução dos seus juízos. À vista da Sua justiça inflexível e da Sua santidade imaculada, não poderíamos esperar nada senão aquilo que agora se descortina perante os nossos olhos.
 
Deve-se, porém, dizer com muita ênfase que o coração humano só pode descansar na bendita verdade da absoluta soberania de Deus e desfrutar dela na medida em que se exerce fé. A fé fixa-se sempre em Deus. Essa é a sua natureza; o que a distingue da teologia intelectual. A "fé permanece firme como quem vê aquele que é invisível" (Hebreus 11:27); persevera no meio das decepções, das necessidades, das angústias de coração que a vida oferece, reconhecendo que tudo provém da mão dAquele que é sábio por demais para errar e que é por demais amoroso para ser cruel. Porém, enquanto nos preocupamos com qualquer coisa que não seja o próprio Deus, não haverá descanso para o coração e nem paz para a mente. Quando, porém, recebemos tudo que nos advém na vida como proveniente da sua mão, sejam quais forem as nossas circunstâncias ou o nosso ambiente - seja num casebre ou num cárcere, ou no madeiro do mártir - teremos a capacidade de dizer: "Caem-me as divisas em lugares amenos" (Salmo 16:6). Essa é a linguagem da fé, e não da vista ou dos sentidos.
 
Se, entretanto, ao invés de nos curvarmos perante o testemunho das Sagradas Escrituras, se, ao invés de andar pela fé, seguíssemos a evidência dos nossos próprios olhos, tomando-a como nosso ponto de partida para o raciocínio, então cairíamos no lamaçal do que, na prática, seria o ateísmo. Ou, se estamos a ser dirigidos pelas opiniões e pelos pontos de vista de outros, não haverá mais paz para nós. Admitindo que há muita coisa neste mundo de pecado e de sofrimento que nos horroriza e nos entristece; admitindo que há muita coisa nos tratos providenciais de Deus que nos assusta e abala, isso não deve ser motivo para concordarmos com o mundano descrente, que diz:
 
"Se eu fosse Deus, não permitiria que isto acontecesse, e nem toleraria aquilo."
 
Muito melhor, ante os mistérios que nos deixam perplexos, é dizer com o sábio da antiguidade: "Emudeço, não abro os meus lábios, porque tu fizeste isso" (Salmo 39:9). As Escrituras dizem-nos que os julgamentos de Deus são insondáveis, e que os seus caminhos são "inescrutáveis" (Romanos 11:33). É mister que seja assim, para testar a nossa fé, para nos fortalecer a confiança na sua sabedoria e justiça, para promover a nossa submissão à sua santa vontade.
 
Aqui reside a diferença fundamental entre o homem de fé e o homem sem fé. O descrente é "do mundo," e a tudo julga conforme os padrões terrenos, encara a vida do ponto de vista do tempo e dos sentidos, e pesa tudo na balança do seu entendimento carnal. Mas, o homem de fé inclui Deus, encara tudo do ponto de vista de Deus, calcula os valores segundo padrões espirituais e vê a vida à luz da eternidade. Assim fazendo, recebe o que lhe advier como provindo da mão de Deus. Assim fazendo, o seu coração conserva a calma em meio à tempestade. Assim fazendo, regozija-se na esperança da glória de Deus. [...] 
 
Reconhecemos que o que temos escrito está em aberta oposição a muitos ensinamentos tão em voga tanto na literatura religiosa como nos púlpitos de mais nomeada do país. Reconhecemos sem hesitação que o postulado da soberania de Deus, com todos os seus corolários, está em contraste directo com as opiniões e os pensamentos do homem natural, mas a verdade é que o homem natural é inteiramente incapaz de meditar nesses assuntos: não é competente para formar estimativa correcta do carácter e dos caminhos de Deus; e é por causa disso que Deus nos deixou uma revelação da Sua mente, revelação em que afirma com clareza: "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos" (Isaías 55:8-9).
À vista dessa citação das Escrituras, só se pode esperar que haja muita coisa na Bíblia em conflito com os sentimentos da mente carnal, que é inimizade contra Deus. Não apelamos, pois, às crenças populares dos nossos tempos, nem para os credos das igrejas, mas para a lei e o testemunho do Senhor. Tudo o que pedimos é um exame imparcial e atento daquilo que temos escrito, lavrado com orações, à luz da Lâmpada da Verdade. Que o leitor dê atenção à admoestação divina: "Julgai todas as coisas, retende o que é bom" (I Tessalonicenses 5:21).
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Por Arthur Walkington Pink
 

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